Páginas

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Uma bela página de Euclides da Cunha


Nota: “Excelente prosador”, dele nos conta Henrique Coelho, “com o seu exuberante e opulento vocabulário, com os ardores da sua fantasia, com os seus lampejos geniais, na concepção e no estilo, possui no mais alto grau o dom das narrações comovedoras e tocantes.  Enternece, sensibiliza, e abala os que o leem; todas as suas páginas palpitam e vibram de emoção.  Reunia o que nem sempre parece fácil harmonizar — a disciplina e o raciocínio de erudito homem de ciência às inspirações e aos devaneios de aprimorado artista.  Tinha de ouro o coração, o coração de um justo, dominado pelo amor ao bem e à verdade.  Austero na vida pública, exemplar na vida privada, morreu moço ainda, vítima de revoltante e infame assassinato, em que o perverso criminoso, destruindo uma existência, extinguiu uma glória”.  Encontrei uma belíssima página sua — publicada em 1907 —, e tive por bem de transcrevê-la, acrescentando algumas notas de vocabulário.  (Não se incomode, aliás, de lê-las o Leitor que já conhece as palavras ou expressões a que se apõem tais notas.)  A crônica intitula-se O valor de um símbolo.

Pedro Valeriano


O valor de um símbolo

Há dous anos, num entardecer de julho, eu chegava com os restos de uma comissão exploradora, à Foz do Cavaljani, último esgalho [1] do Purus, distante 3.200 quilômetros da confluência deste último no Amazonas; e tão perdido naquelas solidões empantanadas que nenhuma carta [2] o revelava…

domingo, 1 de junho de 2025

O livro do rosário de Nossa Senhora

Pedro Valeriano

Capa do livro “O livro do rosário de Nossa Senhora”

Publicámos agora — pela Editora UICLAP — uma preciosidade de livro, intitulada O livro do rosário de Nossa Senhora, do Pe. Nicolau Dias, O.P.  A sua primeira edição leva a data de 1573, mas o livro foi reeditado várias vezes ainda no século XVI.  Conquanto seja considerada uma obra clássica acerca do rosário, o fato é que há séculos este clássico não está nas mãos de quem reza o rosário.  A Biblioteca Nacional de Lisboa, é verdade, chegou a publicar, em 1982, um fac-símile da primeira edição (que hoje é algo raro, diga-se de passagem).  Mas a nossa intenção era dar aos católicos o livro tal como ele havia sido concebido pelo Autor: quer dizer, dar-lhes um livro de leitura fácil e amena.  Por isso, o nosso trabalho foi o de fazer uma humilde adaptação — sem alterar o conteúdo! —, de maneira que este livrinho pudesse ser lido facilmente por quem fosse contemporâneo nosso.  Atualizámos, por exemplo, a ortografia, a pontuação; fizemos a paragrafação, que o livro original não tem; escrevemos pequenas notas no rodapé das páginas cada vez que uma passagem nos pareceu oferecer alguma dificuldade, etc.  Também redesenhámos, manualmente, traço por traço, as ilustrações que embelezam o interior do livro.  Se é verdade que o nosso ideal é, na medida do possível, permanecer fiel aos cânones antigos da arte da Impressão, admitimos que até a nossa maneira de trabalhar se ressente um pouco dele; e isto quer dizer que no livro não se encontrarão, por exemplo, os comuníssimos erros de OCR (“torna” substituído por “toma”, “urna” por “uma”, etc.), pois o nosso trabalho foi o menos possível robotizado.  Se erros houver, terão sido cometidos por mãos humanas.  Note-se, ademais — e hoje é preciso sempre deixá-lo bem claro —, que em nenhum momento usámos “inteligência artificial”.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

O rosário, meu tesouro

Pedro Valeriano

Capa do livro “O rosário, meu tesouro”

Acabámos de publicar, pela Editora UICLAP, a nossa primeira tradução independente. É um precioso livrinho intitulado O rosário, meu tesouro, escrito pelas irmãs beneditinas da adoração perpétua. Como se trata de uma editora de autopublicação, o seu trabalho é grosso modo disponibilizar na loja online o livro e imprimi-lo de acordo com a demanda; as outras partes do processo, desde a tradução até à capa, são da nossa responsabilidade. Quanto a estas últimas, tudo foi feito sem “inteligência artificial”, que tanto tem maculado as publicações das pequenas editoras católicas nos últimos meses — oh! as novidades…

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Foi Cristo pregado pelos pulsos?

Pedro Valeriano


Proêmio


1. Ao que tudo indica, não o foi. Há, no entanto, mormente entre os católicos tradicionais, quem argumente em sentido contrário. Fazem-no fundados na conhecida obra do Dr. Pierre Barbet (1883 – 1961), La passion de N.-S. Jésus-Christ selon le chirurgien (1950). É de espantar um pouco o fato de os católicos tradicionais aceitarem, sem mais, uma hipótese tão recentemente formulada, e que contraria uma tradição de dois mil anos. Não causa nenhum estranhamento ver nas igrejas imagens que O retratam pregado assim, pelos pulsos, quando sempre os cristãos O viram pregado à Cruz pelas mãos?

domingo, 30 de julho de 2023

No fragor da batalha

Pedro Valeriano



Muito se fala nos meios católicos tradicionais acerca da “secularização” da sociedade; mas isto se faz normalmente por um ângulo que tem deficiências: é o ângulo das chamadas “três revoluções da modernidade” (protestantismo, liberalismo, comunismo). Ainda que esta perspectiva tenha suas vantagens, o fato é que ela, por ser esquemática, não parece dar conta da complexidade da situação em que vivemos; observando a realidade apenas por esta perspectiva, somos levados a encaixar esta mesma realidade em um esquema. Disto resulta a confusão que os católicos fazem — influenciados quase sempre pelos liberal-conservadores — entre o comunismo e a atual revolução que nos esmaga, que é bem outra coisa que o comunismo. “Ora, se a terceira e última revolução prevista no esquema é o comunismo, segue-se que o que vivemos hoje é um comunismo.” Trata-se de um erro perigoso: quem duvidaria ser mau negócio combater um inimigo que se desconhece? Pois bem, é Carlos Nougué quem normalmente aborda o assunto por um ângulo muito mais interessante e mais rico: o ângulo da apostasia das nações, e fundando-me em uma ótima palestra sua sobre o assunto decidi escrever o opúsculo que Nougué quis publicar em seu novo livro intitulado No fragor da batalha: A disputa nossa de cada dia.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

O espectro do tradicionalismo oitocentista

Pedro Valeriano


Nota (escrita a 30 de junho de 2025): Julguei conveniente retirar daqui o texto, publicado, se não me engana a memória, em 2022, e depois revisado em 2023, porque pretendo melhorá-lo e dar-lhe nova forma.  Não saberia dizer exatamente quando se publicará novamente, mas é quase certo que terá mais fôlego e que tratará sobretudo de Lamennais.