Nota: “Excelente prosador”, dele nos conta Henrique Coelho, “com o seu exuberante e opulento vocabulário, com os ardores da sua fantasia, com os seus lampejos geniais, na concepção e no estilo, possui no mais alto grau o dom das narrações comovedoras e tocantes. Enternece, sensibiliza, e abala os que o leem; todas as suas páginas palpitam e vibram de emoção. Reunia o que nem sempre parece fácil harmonizar — a disciplina e o raciocínio de erudito homem de ciência às inspirações e aos devaneios de aprimorado artista. Tinha de ouro o coração, o coração de um justo, dominado pelo amor ao bem e à verdade. Austero na vida pública, exemplar na vida privada, morreu moço ainda, vítima de revoltante e infame assassinato, em que o perverso criminoso, destruindo uma existência, extinguiu uma glória”. Encontrei uma belíssima página sua — publicada em 1907 —, e tive por bem de transcrevê-la, acrescentando algumas notas de vocabulário. (Não se incomode, aliás, de lê-las o Leitor que já conhece as palavras ou expressões a que se apõem tais notas.) A crônica intitula-se O valor de um símbolo.
Pedro Valeriano
O valor de um símbolo
Há dous anos, num entardecer de julho, eu chegava com os restos de uma comissão exploradora, à Foz do Cavaljani, último esgalho [1] do Purus, distante 3.200 quilômetros da confluência deste último no Amazonas; e tão perdido naquelas solidões empantanadas que nenhuma carta [2] o revelava…



